Amor Patológico: quando os limites são ultrapassados

Quando vemos pessoas que amam demais, os amores patológicos, várias questões nos surgem, como por exemplo: como ela não se livra desta situação? Por que sofrer tanto? Situação muito difícil de ser compreendida por uma sociedade, que valoriza a força do individualismo e das relações cambiais.

Este texto se apoiará na psicanálise para fazer uma pequena reflexão sobre o amor patológico, que se caracteriza quando existe uma falta de limites nos cuidados e atenção dedicados aos parceiros, estes recebem tudo e muito pouco o indivíduo investe nele mesmo, nos seus interesses prévios, amigos e familiares.

Para a psicanálise, escolhemos inconscientemente nossos amores de duas maneiras: a anaclítica, quando escolhemos pessoas que representam para nós nossos primeiros objetos de amor (pai e mãe); ou narcísica, quando eu busco a mim em um outro. Podendo haver as duas possibilidades de escolha no mesmo objeto. As pessoas que amam demais tentem a fazer ligações anaclíticas, muitas vezes buscando nos parceiros o afeto que não receberam de seus primeiros objetos de amor.

Quando amamos apaixonadamente sempre amamos um misto feito da nossa fantasia e da pessoa real. Como isto ocorre? Imaginemos uma relação afetiva com alguém que nos atraía, começamos então a pensar, a fantasiar constantemente sobre ela.  Assim, frequentamos essa pessoa até incorporá-la e transformá-la em uma parte de nós mesmos. Agora que o ser amado está dentro de nós, no nosso pensamento, o tratamos com amor ainda mais poderoso do que aquele que lhe voltássemos quando era real. Então, a pessoa amada deixa de estar do lado de fora e vive dentro de nós como um objeto fantasiado, sem defeitos, que mantém e reaviva nossas pulsões sexuais, assim a pessoa real passa não existir mais para nós senão sob a forma de uma fantasia.

Todos nós passamos por esta experiência quando estamos apaixonados, na qual tudo é para o outro, que eu esqueço de mim mesmo, das minhas necessidade e dos meus interesses, me tornando submisso ao meu amor, porém com o contato constante com o ser amado, parte da fantasia se dissipa e decidimos se nos ligaremos a ele, ou não, aceitando seus aspectos reais. No amor patológico, mesmo diante de evidências concretas, a pessoa resiste a deixar a fantasia amorosa.

As pessoas que amam demais vivem um processo de drogadição, na qual a “droga de escolha” é o parceiro amoroso, embora possamos ter homens nesta condição, este quadro é mais encontrado em mulheres, talvez porque culturalmente as mulheres são ensinadas que a relação a dois deve ser uma prioridade em suas vidas, que devem se sacrificar pelo bem de seus parceiros, em uma concepção romântica de relações amorosas, que pode prejudicar e muito o encontro real.

Sophia, et. al. (2007), apoiados na Associação Psiquiátrica Americana, indicam seis critérios em comum entre o amor patológico e a dependência química:

1) Crises abstinência – quando o parceiro está distante (física ou emocionalmente);

2) O ato exagerado e sem controle de cuidar do parceiro;

3) Tentativas malsucedidas de reduzir ou controlar o comportamento patológico;

4) Gasto exagerado de tempo para controlar o parceiro;

5) Abandono de interesses e atividades antes valorizadas;

6) Apesar dos problemas pessoais e familiares, o vínculo patológico é mantido.

As causas do Amor Patológico podem estar na socialização primária, nas observações e vivencias que a criança teve em sua família. Pais distantes, física e/ou emocionalmente entre eles e ou entre eles e as crianças, podem gerar sentimentos carência e medo do abandono. Em seus comportamentos infantis, as crianças tentam evitar que isto ocorra, buscando inclusive serem reconhecidas por suas atitudes de amor extremo, que inclui abnegação, porém quando não recebem o reconhecimento que imaginam merecer, sentimentos intensos de vazio e menos valia ocorrem. No amor patológico, quando adultos, acontece uma reativação destas primeiras reações ao medo da perda do amor.

A pessoa que ama demais é aprisionada por seus próprios comportamentos e emoções, possui uma extrema dependência do seu objeto de amor, o que pode culminar em obsessão. Ela tenta controlar não só comportamentos, mas também os pensamentos, desejos e o mundo psíquico do seu amado, contudo, quanto mais se esforça em busca da reciprocidade amorosa, mais pode afastá-lo, o que intensifica os sintomas do amor patológico, ocasionando assim um círculo vicioso (maior possibilidade da perda – maior investimento).

O primeiro passo para um tratamento efetivo está em se admitir o problema, é preciso reconhecer a dependência e o vício em um amor insatisfatório e dolorido cujas raízes podem estar em relacionamentos não saudáveis da infância. Buscar ajuda profissional em psicoterapias de grupo e/ou individual, além da participação em grupos de apoio como o MADA (Mulheres que amam demais), podem auxiliar a recuperação de pessoas com amor patológico. Aos poucos, em um trabalho sério de autoconhecimento e com a reconstrução de seus limites, a vida pode ir ganhando novos interesses.

SOPHIA, Eglacy C; TAVARES, Hermano; ZILBERMAN, Monica L. Amor patológico: um novo transtorno psiquiátrico?. Rev. Bras. Psiquiatr.,  São Paulo ,  v. 29, n. 1, p. 55-62,  mar.  2007 .