Auto-Retrato

Autorretrato (selfie): A Visibilidade da Identidade em Tempos de Solidão

O autorretrato sempre foi uma expressão do artista sobre si em uma imagem construída para o olhar alheio. O espelhamento da identidade em uma obra artística pode ajudar o artista a se conhecer e reconhecer pelo olhar do outro.

Contudo, hoje vivemos em uma sociedade do espetáculo na qual ver e ser visto ganha destaque. Nesta sociedade narcisista o que importa é o belo, o tempo presente, a ausência de dor e da morte, aspectos constantemente influenciados pela realidade ficcional da televisão e pela lógica capitalista da publicidade, que reconhece o sujeito não em sua ação política, mas no ato de seu consumo.
Os ídolos e líderes que antes eram pessoas com atuações públicas para desenvolvimento da comunidade, hoje foram substituídos pelos corpos formatados pela indústria do consumo. Assim, a loira siliconada e o rapaz sarado tornam-se ídolos, por um discurso que tende a ser tão raso quanto universal para que um maior número de pessoas possa se identificar com eles e pautar aspectos de suas identidades no modelo de um outro ficcional.
A lógica cartesiana (penso logo existo) tem sido aos poucos substituída pela lógica da visibilidade: eu sou por que o outro me vê. Com a influência desse sentimento primário, que se inicia quando o bebê se reconhece como filho por meio do olhar da mãe, uma pessoa que não tem olhares direcionados para si corre um grande risco de não ser ninguém.
A solidão permeia todo esse processo já que não podemos compartilhar a dor de não saber quem somos e de não conseguir atingir o modelo de felicidade ilusoriamente imposto. Assim, no estabelecimento de identidades nos identificamos com imagens corporais apresentadas pela mídia: sem sofrimentos, histórias e falhas.
Na atualidade o selfie (autorretrato) deixou de ser a expressão individual em busca da identidade e foi capturado de uma forma adversa pela sociedade, pois passou a ser uma luta desesperada de para se tornar visível. Com ajuda da tecnologia, as pessoas se auto-retratam, não em sua totalidade, mas em aspectos distorcidos e “photoshopados” da realidade: a ilusão de um eu visível.
Artigo publicado da Revista da Imagem, 2008